textos sobre teatro (III)


Espectáculo em análise:

·       Eu não sou bonita. Eu sou o porco.
Concepção, direcção e espaço cénico: John Romão
Textos: Angélica Liddell e Paulo Castro
Interpretação e co-criação: Solange Freitas e John Romão
Desenho de luz: Daniel Worm d’Assumpção
Música: Daniel Romero
Vídeo: Luis De Los Santos
Fotografias: Susana Paiva
Co-produção: Colectivo 84, Festival Citemor, Vertigo
Projecto financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian – Programa para as Artes Performativas, – Novos Encenadores


Texto:
            Actor, encenador, criador, performer. Assim é John Romão. No seu (ainda) curto reportório é possível encontrar trabalhos relevantes dentro e fora de Portugal (como por exemplo a colaboração com Romeo Castellucci na Biennale de Veneza 2011).
            Eu conheci John Romão à precisamente seis anos. Fui ingenuamente das primeiras candidatas a frequentar o primeiro workshop organizado por este mesmo encenador. Desde então o seu trabalho evoluiu e neste seu novo projecto decidiu trabalhar com a actriz Solange Freitas a solo.
            No espectáculo é-nos apresentado o dispositivo do corpo humano como objecto primitivo. O próprio encenador demonstrou interesse em juntar a imagem do corpo feminino com a ideia do surrealismo. Usando o corpo como dispositivo principal, a ideia de desejo é levada ao extremo: histórias de violação passam a contos de esventramento.
            Neste trabalho corporal lembrou-se do texto de Angélica Liddel que o ajudou a manter o registo confessional da personagem feminina que durante todo o espectáculo nos relata histórias horrorosas e absurdas com grande peso nos “incidentes” da sexualidade feminina (sendo a verbalização destas mesmas histórias um acto perverso e cru tal e qual como o tema exposto sem qualquer pudor ou tato na língua: sexo).
            Ainda na escrita do espectáculo, Paulo Castro fora desafiado a escrever sobre o abuso de menores. O resultado final fora um cruzamento com o texto de Angélica Liddel onde o guião do espectáculo manteve um registo denso com uma poética muito forte. Assim temos dois textos num só dispositivo. A partir daqui toda a construção cénica baseou-se no género trash americano, isto é, desde inúmeras cruzes néon suspensas no tecto, peluches quase esventrados espalhados pelo palco, pedaços de carne e peixe esventrados mesmo à nossa frente, o fumo quase espesso como algodão que interfere com a visão do espectador: a ideia de instalação sempre presente em todo o espaço tal como a performance, elemento base deste espectáculo.
Todos estes elementos são baralhados e confundidos na nossa mente com a pertinência de causar algum distúrbio seja este o medo, o espanto ou o desconforto de ver algo em cena com que não nos relacionamos mas que é difícil de atingir e a um certo ponto incomoda o olhar. Pessoalmente creio que o trabalho de John Romão possui uma assinatura de autor sempre assumida e nunca submetida a outrem, ao contrário de outros criadores performativos, Romão mantém a sua marca no teatro de performance e assim prossegue na sua evolução como artista sempre desconcertante, claro.
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