textos sobre teatro (II)


Espectáculo em análise:

·       Pregação

Criação : Alexandre Pieroni Calado
Vozes : Hugo Betencourt, Iolanda Laranjeiro, Sandra Hung, Tiago Mateus.
Registo Áudio : Tiago Inuit
Edição Vídeo : João Ferro Martins
Fotografia : Carolina Thadeu
Comunicação : Miguel Pacheco Gomes
Produção : Artes e Engenhos
Apoios : Câmara Municipal de Almada, Faculdade de Ciências e Tecnologia – U.N.L., NNT – Novo Núcleo Teatro, Teatro O Bando, Comuna Teatro de Pesquisa.
Residência Artística : Oficinas do Convento, Atelier Real


Texto:
           Após a sua estreia no Teatro da Comuna, a 16ª Mostra de Teatro em Almada recebeu o novo espectáculo de Alexandre Calado, “Pregação”.
            Digamos que o verbo “pregar” foi induzido à sua origem. Neste ano de 2012 tive a oportunidade de trabalhar com este encenador num projecto de teatro universitário. Dado às horas de trabalho envolvidas, existia uma ideia que o próprio Alexandre não conseguia esquecer, uma ideia que se baseava numa espécie de manifesto ou ensaio. Tudo isto baseado na obra de Padre António Vieira: “Sermão de Santo António aos Peixes”.
            Esta ideia florescia à medida que pesquisava mais sobre a origem e o desenvolvimento deste documento do autor Padre António Vieira. Então aí fez um aprofundamento de costumes da altura em Portugal (séc. XVII) e corelacionou este tão famoso sermão de Santo António aos homens, isto é, o autor impôs a hipótese de fazermos a analogia entre os peixes e os homens/a condição humana. Estes últimos dados foram recolhidos de material de pesquisa presente antes do espectáculo (estavam à disposição no espectador fora da sala de espectáculo) e lembranças de alguns momentos convividos com o próprio Alexandre Calado.
             
A experiência do espectáculo em si, faz não só relembrar toda a informação acima descrita (ou seja, não consigo desconectar o conhecimento à priori do trabalho deste encenador e da sua pesquisa à análise deste seu novo espectáculo) como consegue passar a mensagem na forma de um manifesto antigo que relata as virtudes que dependem de Deus versus as virtudes naturais dos peixes/homens. Este é o desafio.
            Mais tarde, ao analisar as características específicas de cada peixe, as metáforas proferidas são cada vez mais intensas e direcionadas a um conjunto humano com características concretas: a plebe, o governo, os artistas, entre outros dominantes. Segue-se a comparação entre os peixes e o próprio Santo António, o qual afirma substancialmente a sua conexão intima com Deus distinguindo-se dos peixes, os parasitas. Ao longo de todo o espectáculo é-nos relembrado e repetido vezes sem conta quem é quem: Os Roncadores (representam o Orgulho); Os Pegadores (os que vivem dependentes); Os Voadores (vivem com ambição); O Polvo (simboliza a traição). Todo o lado estético do espectáculo também o é bastante simples com especial foco numa pequena instalação que contém todos os elementos simbólicos e necessários para relatar este ensaio sobre o “Sermão de Santo António aos Peixes”.
            Todos estes elementos encontram-se reunidos neste novo trabalho de Alexandre Calado que vale a pena experienciar, não para observar/estudar o “Sermão de Santo António aos Peixes” mas para estar disponível a um novo olhar sobre esta obra (como é óbvio, é quase requisito obrigatório que antes de ver este espectáculo que se conheça ou que se tenha estudado em tempos esta mesma obra da autoria de Padre António Vieira).
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