Mal Nascida

A morte do pai e os erros do passado transfiguraram Lúcia por dentro. Desde então insiste em vestir-se de luto, enquanto o resto da família mantém-se em “conformidade” com a situação, tendo em conta que o assassínio do pai de Lúcia e marido de Adelaide já foi há bastantes anos. Mesmo assim, tudo insiste para que Lúcia se case o mais rapidamente possível para não andar nos burburinhos da aldeia, para que o sofrimento ressentido na sua família se estagne. Com a chegada de dois estranhos, tudo irá desencadear-se conforme o tempo e Lúcia irá vingar a morte do pai.
Se começarmos pelo princípio, a 1º cena diz tudo (ou quase) sobre o filme. O acto de cortar o cabelo possui uma simbologia da personagem principal, Lúcia, ser maltratada, incompreendida e talvez, louca. Cada corte na imagem, cada som da tesoura simboliza tudo o que fora retirado à força no mundo de Lúcia – o amor, a família, os amigos e a sua auto-estima. Tal como João Canijo afirmou, esta é uma “tragédia de Electra adaptada ao Portugal rural”, todo o elemento trágico circula à volta do carácter específico de uma tragédia grega.
Na história, os pecados nunca são assumidos, as pessoas reagem violentamente à verdade nua e crua, todo o retracto da cultura popular tem um lado submisso nesta aldeia rural portuguesa. O drama é intenso, conseguimos entender esta intensidade através de imagens escuras e sons repentinos ou pelas cenas de discussão à hora do jantar, onde todas as personagens perdem o controlo e reagem de uma maneira quase primária, não existe o poder do diálogo para resolver os problemas, todas as palavras ameaçam violência (ou o dão a entender); a música é uma maldição, consegue-se ouvir o som do arcodeão em diferentes espaços, parece perseguir o espectador, relembrando-o que algo vai acontecer, que apesar da dura realidade a que estamos a assistir, algo vai mudar.
O desfecho trágico é óbvio mas não possibilita ao espectador prevê-lo, cabe ao mesmo receber ou não este final de várias maneiras, ilustrando uma pequena perspectiva sobre o futuro daquelas personagens. No geral, este filme com a marca inconfundível de João Canijo, transmite que viver no passado é um erro austero mas não irreversível. 3 estrelas.
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